ANO JUBILAR JULIMARIANO
Venerável Júlio Maria De Lombaerde, uma figura seminal
?Outras sementes caíram em terra boa
e produziram frutos?
[Mt 13,8]
Na história do cristianismo encontramos várias figuras seminais que servem de luzes nas trevas, de fidelidade na infidelidade, de esperança no desânimo, de harmonia em meio aos conflitos... Essas figuras são como as sementes de que fala Jesus na Parábola do Semeador (Mt 13,8). As sementes são de qualidade, bastam cair em terra boa para geminar e dar os seus frutos no tempo certo.
Ao longo destes mais de dois milênios de história cristã temos muitas sementes boas que geraram vida, novidades e desafiaram seu tempo, entre as quais queremos lembrar: São Paulo Apóstolo, de perseguidor dos cristãos a seguidor do Caminho; Perpétua e Felicidade, exemplo de resistência e coragem nas adversidades da vida; Francisco de Assis, num contexto de busca de riqueza e de poder, o pobrezinho de Assis preferiu trilhar o caminho da pobreza e da Cruz; Catarina de Sena, dentro de um cenário eclesial marcado pela disputa pelo poder, a jovem de Sena é sinal de escuta, de diálogo e promove a paz e harmonia na Igreja; Teresa de Ávila e João da Cruz, num ambiente de mornidão espiritual, eles propõem uma reforma que toca o coração do ser humano e o leva a Deus; São João XXIII, o Papa bondoso, numa Igreja enrijecida, foi aquele que ensinou a se inclinar para ler os sinais dos tempos, a não temer reformas, a cuidar do ser humano do seu tempo com o remédio da caridade. As sementes boas não param de surgir, a cada tempo, a cada situação, gerando bons frutos para a Igreja e o mundo.
Venerável Júlio Maria, a boa semente na seara do Reino
No contexto do Ano Jubilar Julimariano queremos lembrar de mais uma boa semente que foi lançada por Deus, na Igreja do Brasil, de modo especial na Diocese de Caratinga (MG), o Venerável Júlio Maria De Lombaerde, MSF. Ele foi um grande presente para esta Igreja particular que aos poucos estava se organizando, sob a inquietação missionária de seu primeiro bispo, Dom Carloto Fernandes da Silva Távora.
O Venerável encontrou em Dom Carloto Távora a acolhida que simbolizava um novo tempo que se inaugurava em sua história. Dom Carloto Távora e Pe. Júlio Maria se tornaram amigos. Um ajudava o outro em seus trabalhos e em suas missões específicas. Dom Carloto Távora tornou-se o guardião da Congregação Sacramentina e abençoava os feitos do Pe. Júlio Maria, e ele o ajudava nas questões da Diocese, assumindo paróquias, formando o clero através de palestras e pregações de retiro.
A amizade construída entre os dois vai muito além de um afeto pessoal. Para o Pe. Júlio Maria, a Igreja é mãe e o bispo é a Igreja. A sua amizade com o bispo diocesano representava, portanto, a sua proximidade com a Igreja.
A morte de Dom Carloto Távora abalou profundamente o missionário belga, porque trazia insegurança para os projetos que ambos sonharam juntos. Mas, como o Pe. Júlio Maria era um homem de fé, novamente se colocou nas mãos de Deus, sob o olhar de Nossa Senhora e seguiu o seu propósito, sempre em comunhão com os bispos diocesanos, demonstrando, assim, o seu amor e a sua comunhão com a Igreja.
Pe. Marcos Antônio Alencar Duarte, SDN | 13º Superior Geral da Congregação dos Missionários de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento [Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora], primeira Congregação masculina fundada no Brasil.
Santidade, um caminho de comunhão com Deus e serviço aos irmãos
A santidade, para o Pe. Júlio Maria, nasce do desejo firme de caminhar com Deus. Esse querer ganha uma nova força quando reconhecemos que somos pequenos e vulneráveis. Longe de ser uma conquista feita apenas por nossas próprias forças, a santidade é, antes de tudo, o abandono confiante na graça divina. É esse amor gratuito do Pai que abraça as nossas fraquezas e orienta com carinho o nosso querer, transformando a nossa pequenez em um canal do seu amor.
Quando compreendemos que dependemos totalmente dessa graça, nosso olhar muda. Deixamos de lado o orgulho e passamos a enxergar com profunda empatia a dor do outro. É por isso que essa caminhada se realiza, de forma viva e bonita, no cuidado acolhedor aos irmãos pobres e sofredores. Esse caminho de santidade se traduziu perfeitamente nas ações concretas do Pe. Júlio Maria ao longo de sua vida:
O caminho de santidade percorrido pelo Pe. Júlio Maria nos ajuda a perceber que essa vereda consiste em abraçar as nossas próprias limitações. Essa percepção nos torna capazes de seguir esse mesmo exemplo, estendendo as mãos para amparar, ouvir e confortar os que choram. A santidade deixa de ser uma busca por perfeição pessoal e se torna um espaço onde a graça de Deus age em nós, enviando-nos para cuidar com ternura de Cristo presente no rosto de cada irmão necessitado.
Ano Jubilar Julimariano: memória, comunhão e missão
A Igreja Católica para comemorar acontecimentos importantes ou lembrar figuras carismáticas que nos apontam caminhos, atitudes e mudanças de mentalidades, convida seus fiéis à vivência de um Ano Jubilar Extraordinário. Isso porque o Ano Santo ou o Jubileu da Igreja é um acontecimento que se dá de 25 em 25 anos. Este tempo lembra a espiritualidade do povo hebreu que celebrava um ano especial a cada 50 anos, recordando a misericórdia, a reconciliação com Deus e com os irmãos, o repouso da terra, o perdão das dívidas, a libertação dos cativos, o restabelecimento dos enfermos e a promoção da paz [Is 61,1-3]. A Igreja Católica celebra o Ano Santo alimentando-se desta rica espiritualidade.
O Jubileu Julimariano, na Diocese de Caratinga (MG), decretado por Dom Juarez Delorto Secco, é uma expressão da graça do Ano Santo que vivenciamos em cada Jubileu ordinário. Será um acontecimento eclesial, espiritual, local, concedido a esta Igreja diocesana, que iniciará no dia 08 de janeiro de 2027 e terá seu término no dia 08 de janeiro de 2028, quando celebraremos o Sesquicentenário de Nascimento do Venerável Júlio Maria De Lombaerde, (1878-2028). A Igreja diocesana de Caratinga viverá a espiritualidade deste Ano Jubilar e colherá os seus frutos. É neste sentido que podemos dizer: vivamos este Ano Jubilar nos aproximando da história e da vida, da obra e da missão do Pe. Júlio Maria De Lombaerde.
Para gerar este encontro teremos dois momentos fortes: a visita dos Missionários Sacramentinos às paróquias da Diocese de Caratinga, apresentando o Venerável Servo de Deus; e o segundo, a visita das paróquias durante este Ano Jubilar à Manhumirim (MG), para conhecer o Santuário do Bom Jesus, visitar o Mausoléu do Venerável Júlio Maria De Lombaerde, o Seminário Apostólico, o Memorial Pe. Júlio Maria De Lombaerde, a Capela Visão Sacramentina e o quarto do missionário belga. Ainda se faz necessário pisar o solo onde o Venerável entregou sua alma a Deus: o Distrito Padre Júlio Maria, em Alto Jequitibá (MG). Lá, encontram-se a Igreja Santo Antônio, o mirante e um memorial que salvaguarda a história daquele solo sagrado. Nesta ocasião, reza-se na intenção do Santo Papa, faz-se uma boa confissão e participa-se da Santa Missa com o intuito de receber a indulgência deste Ano Jubilar. Aproveite a ocasião para conhecer e tornar-se um admirador, um devoto deste homem de Deus.
Uma semente de Deus que frutificou
Bernardo de Claraval (1153) fazia uma exortação a seus monges sobre a ?abundância e excrescência das figuras simbólicas e alegóricas da arquitetura do seu tempo?. Volta-se contra ela, porque, segundo opinava, a diferença dos símbolos antigos e essencialmente simples, podia com facilidade levar a fantasia a descaminhos, pois lhe interessava, sobretudo, reter os seus monges na leitura e meditação, livrando-os de distrações. Por isso, prescreveu em sua ordem especial com referência à ornamentação figurativa das igrejas e corredores. ?O que veem...??. Essa pergunta de Bernardo pode ser feita a todos nós neste Ano Jubilar Julimariano. O que vemos quando olhamos para as várias fotos do Venerável Júlio Maria? O que refletimos quando nos aproximamos do seu pensamento? O que queremos quando em nossas casas e comunidades colocamos quadros, imagens e fotos deste ilustre filho da Igreja? Ainda: o que queremos quando fazemos Pastoral Vocacional, quando cuidamos dos colégios, hospital e paróquias a nós confiados e nos apresentamos como filhos espirituais e devotos do Pe. Júlio Maria?
A figura seminal, quando bem compreendida, aceita e encarnada na vida do grupo, deixa de ser uma simples personagem e transforma-se num símbolo. É esse processo que precisamos fazer com a figura do Venerável Júlio Maria. Ele não é só um personagem forte e significativo para a Família Julimariana, para a Diocese de Caratinga ou para a Igreja em geral. É símbolo de um apostolado, de uma Igreja cuja natureza é missionária. Isso não caduca, pois o símbolo simplesmente fala por si só. ?O símbolo escapa, porém, à definição exata. Forma parte de seu ser, não se deixa reduzir a quadro fixo, uma vez que unem os extremos, o incomponível, concretude e abstração, servindo à finalidade de aludir, com sinal perceptível aos sentidos, a algo que não é perceptível aos sentidos?.
Para descobrirmos se o Venerável Júlio Maria, missionário-eucarístico-mariano, é um arquétipo que penetrou no mais profundo do consciente humano de seus filhos espirituais e devotos, basta vermos se ele é símbolo vital para esse grupo específico. ?Quando uma pessoa vira símbolo, ela se eterniza. Podemos até esquecer sua biografia, mas ela se torna uma realidade coletiva e começa a viver no inconsciente coletivo com uma energia poderosa, que emerge continuamente em mil fulgurações?.
Talvez o grande fruto da Celebração do Sesquicentenário de Nascimento do Pe. Júlio Maria seja o esforço de despertar a boa semente do Venerável Júlio Maria que está lançada dentro de nós. Para que ela nasça, se desenvolva e dê frutos por meio de nosso trabalho missionário, por uma vida espiritual mais arrojada, por um grau de pertencimento à comunidade de fé, por uma opção radical pelo Reino de Deus e pela vivência, no caso dos religiosos, de sua Vida Consagrada.
O Venerável Júlio Maria é figura seminal para a Igreja, para as congregações fundadas por ele, para os leigos e leigas. Sem essa figura, certamente nossa família religiosa já teria morrido há muito tempo e caído no esquecimento. Quem dele se aproxima e deixa-se afetar entra em crise, porque começa a questionar seu jeito de viver o seguimento a Jesus Cristo. Ele é uma fonte de inspiração para a Igreja, por isso o sentido deste Ano Jubilar.
O Venerável Júlio Maria nos deixa em crise, nos exorta, anima, inspira e encoraja na vivência do seguimento a Jesus Cristo, na Igreja, como missionários do Reino de Deus. Que a Virgem do Santíssimo Sacramento nos ajude a viver este Ano Jubilar buscando as virtudes que levaram o Venerável Júlio Maria a se tornar um modelo de missão, de entrega e de fidelidade à Igreja pela via da contemplação dos mistérios da encarnação e da redenção do Verbo de Deus.
Heinz-Mohr, Gerad. Dicionário dos Símbolos: imagens e sinais da arte cristã. Paulus, 1994.
Oração pelo Ano Jubilar Julimariano
Ó Trindade Santa, nós Vos louvamos pelo Venerável Júlio Maria De Lombaerde, na celebração do seu Sesquicentenário de Nascimento.
Ele foi um dom do Vosso amor à Igreja, agindo como missionário do Reino e cuidando das crianças, adolescentes, jovens, famílias e idosos. Ao anunciar com firmeza o Evangelho, revelava a beleza da fé. No confessionário, distribuía o perdão divino; em seus escritos e catequeses, instruía os fiéis; e, em suas obras sociais, manifestava-se como o bom samaritano da humanidade.
Na sua terna devoção a Nossa Senhora, viveu o desejo de ser como Maria. Na sua vivência eucarística, nutriu a vontade de entregar-se por inteiro à missão. Nas congregações fundadas, expandiu seu carisma e sua espiritualidade para que o Reino de Jesus acontecesse.
Nós Vos pedimos, ó Trindade Santa, que, ao celebrar este Ano Jubilar Julimariano, tenhamos um coração convertido, uma obediência evangélica e, sobretudo, uma generosidade missionária, inflamados pelo espírito do Venerável Júlio Maria De Lombaerde. Assim seja. Amém.
Ibid.
LELOUP, Jean-Yves. Terapeutas do Deserto ? De Fílon de Alexandria e Francisco de Assis a Graf Dürckheim. p. 67. Petrópolis-RJ: Vozes, 2002.
Filhas do Coração Imaculado de Maria [Irmãs Cordimarianas], 1916; Missionários de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento e Irmãs Sacramentinas de Nossa Senhora, 1929.
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