Fotos com som ou fotos boomerang tem sido a sensação do momento. O ato de tirar foto no espelho perdeu a vaga para os filtros das redes sociais. Selfies entupidas de maquiagem, filtros rosados e cobertas de borboletas voando sobre os rostos. Se uma imagem diz tudo, porque vemos tantos stories vazios de sentidos e sem motivos? Porque tantos posts são derramados nos perfis sociais sem terem um motivo significativo? Postar foto da hora que levantou, do prato de comida num restaurante chique, do copo de Chopp, imagens que poluem nossa visão e não acrescentam nenhum conhecimento vívido para a vida.
Antes de se tornar um brinquedo, o boomerang era uma arma de guerra já presente no Antigo Egito. Depois tornou-se objeto de esporte olímpico, brinquedo inofensivo para crianças e até slogan de super-herói. Agora, ele é efeito fotográfico nas redes sociais. Sua origem se perde em meio a tantas tecnologias e avanços digitais. O mesmo acontece na indústria cultural da música. Efeitos boomerang nas trilhas sonoras que remixam clássicos musicais e dão nova roupagem ao que um dia escreveu parte de nosso passado histórico.
A função única e solitária do boomerang é clara e objetiva: tudo o que vai, volta! Exatamente! Na mesma velocidade que você o lança para o alto, ele retorna para o ponto em que foi lançado. Músicas remixadas, ou regravadas, assim como reboot de filmes de grande sucesso estão na onda da filosofia do boomerang e voltam com uma nova roupagem, novos sons. Infelizmente na fotografia o efeito boomerang não proporciona uma visão artística agradável, nem tudo o que vai, volta do mesmo jeito, para o mesmo lugar e nem no mesmo peso. Com o tempo, os olhos vão perdendo o brilho, a pele ganha rugas de expressão, os cabelos diminuem sua quantidade de fios e perdem a cor original.
Em 1982, Lulu Santos estava no auge das paradas de sucesso como álbum Tempos Modernos. A música de mesmo nome vislumbra um futuro melhor impedido de acontecer porque estamos dependurados sobre um ?muro de hipocrisias que insiste em nos rodear?. O tempo voa, e se ficarmos presos ao looping dos boomerangs, vamos perder os momentos especiais da vida. Hoje, o tempo nos pede coragem e nos desafia a envelhecer, a amadurecer, a ousar, a assumir novos caminhos, novas cores, novas experiências. ?Hoje o tempo voa, escorre pelas mãos, vamos nos permitir...?
Depois do grande sucesso dos anos 80, outros cantores precisaram trazer à tona Tempos Modernos, pois o tempo moderno em que se encontravam ainda não havia derrubado o muro de hipocrisias que reina entre nós. E nós o usamos para estar sempre por cima. Artistas como Jota Quest, Claudinho & Buchecha, Marisa Monte, Netinho, Biquini Cavadão, Ivete Sangalo, Zizi Possi, Preta Gil, LS Jack, Zé Ramalho entre outros, usaram a técnica do boomerang e trouxeram a mensagem de volta, mas, ao mesmo tempo, diferente do boomerang, não ficaram presos no looping e a música ficou marcada em cada década em que foi regravada.
Portanto, menos filtro e mais naturalidade, menos pó e mais pele, menos espelho e mais rostos e sorrisos, menos fotos e mais momentos e encontros, menos áudios no WhatsApp e mais chamadas de vídeo, sobretudo quando uma pandemia nos afasta. Entre um boomerang e outro, talvez escrever mais, ligar mais, comprar mais livros, ligar mais o rádio e menos o Spotify pode ser não uma volta ao passado, mas um reconectar com a saudade e a leveza daquilo que a vida e a natureza nos oferta.
Frt. Dione Afonso, SDN
Missionário Sacramentino de Nossa Senhora
Foto: Play/Pause.
Foto de Thomas Breher @TBIT por Pixabay
19 de novembro de 2020.