Ao encontrar na Sala Paulo VI os membros da Associação Retrouvaille, o Papa recorda o valor das feridas familiares que, se colocadas a serviço dos outros, ajudam a curar quem as vivencia. Salienta que a crise faz parte da história da salvação e convida a «perder tempo» para acompanhar os cônjuges com paciência, respeito e disponibilidade.
Na Sala Paulo VI, Francisco encontra no final da manhã deste sábado, 6, cerca de 600 pessoas ligadas à Associação Retrouvaille, um serviço experencial oferecido a casais ??ou conviventes que sofrem graves problemas de relacionamento, que estão prestes a se separar ou já separados ou divorciados, e que pretendem reconstruir seu relacionamento amoroso, trabalhando para salvar seu matrimônio em crise, ferido e dilacerado.
Antes do encontro com o Santo Padre, houve espaço para alguns testemunhos e também para a escuta de Fr. Marco Vianelli, há dois anos diretor do Escritório para a Família da Conferência Episcopal Italiana. O sacerdote lembra que a experiência de acompanhamento das famílias feridas é um recurso precioso, porque das feridas surgem na maioria das vezes lacunas.
Dirigindo-se aos representantes presentes na Sala Paulo VI, o Papa saúda este "encontro" precisamente durante o Ano da Família Amoris Laetitia. O que devemos temer é cair no conflito - sublinha Francisco - porque é difícil encontrar uma solução no conflito. ?Por outro lado, a crise te faz dançar um pouco, às vezes te faz ouvir coisas ruins, mas da crise se pode sair, desde que dela se saia melhor?. E acrescenta que dificilmente se pode sair sozinho da crise. Portanto exorta, saindo do discurso escrito, a não ter medo da crise, mas sim temer o conflito.
O Papa se detém imediatamente na palavra crise que o período pandêmico infelizmente nos tornou familiar. A crise é considerada pelo Papa como ?uma oportunidade de dar um salto qualitativo nas relações?. E faz referência à Exortação Amoris laetitia na parte dedicada às crises familiares (cf. 232-238). Leva em consideração então, com base nas experiências dos casais, a outra palavra-chave: feridas.
Porque as crises das pessoas produzem feridas, chagas no coração e na carne. ?Feridas? é uma palavra-chave para vocês, faz parte do vocabulário diário da Retrouvaille. Faz parte da sua história: de fato, vocês são casais feridos que passaram pela crise e estão curados; e precisamente por isso são capazes de ajudar outros casais feridos. Vocês não abandonaram, você não foram embora. Vocês pegaram nas mãos a crise para buscar uma solução.
Francisco agradece a Retrouvaille porque a experiência vivida pelos cônjuges é colocada a serviço dos outros. E fala de ?um dom precioso quer a nível pessoal como eclesial?, e agradece porque é um gesto que faz crescer e amadurecer outros casais.
Hoje há tanta necessidade de pessoas, de cônjuges que saibam testemunhar que a crise não é uma maldição, faz parte do caminho e constitui uma oportunidade.
Aqui, mais uma vez saindo do discurso preparado, o Papa insiste que também os padres, os bispos devem trilhar este caminho, o de considerar a crise como uma oportunidade. ?Pelo contrário - diz ele - seríamos padres e bispos fechados em nós mesmos, sem um diálogo real com as outras pessoas?.
Mas, para ter credibilidade, é preciso ter experimentado isso. Não pode ser um discurso teórico, uma "exortação piedosa"; não seria credível. Em vez disso, vocês levam um testemunho de vida. Estavam em crise, estavam feridos; graças a Deus e com a ajuda de seus irmãos e irmãs vocês estão curados; e decidiram partilhar a sua experiência, colocá-la ao serviço dos outros.
O Papa então menciona os dois textos bíblicos, do Bom Samaritano e de Jesus ressuscitado, que mostra suas chagas aos discípulos. São passagens do Evangelho que a Associação considera correlatas e cuja justaposição - observa Francisco - o ajudou a ver melhor que a ligação entre essas duas figuras "passa pelas feridas, chagas".
No personagem do Bom Samaritano, sempre foi reconhecido Jesus, desde os escritos dos Padres da Igreja. A experiência de vocês ajuda a ver que aquele samaritano é o Cristo Ressuscitado, que conserva no próprio corpo glorioso as chagas e precisamente por isso pode - como diz a Carta aos Hebreus - sentir compaixão por aquele homem ferido abandonado ao longo do caminho, pelas feridas de todos nós.
No centro do discurso do Papa está também a palavra acompanhar, "uma das palavras mais importantes no processo sinodal sobre a família de 2014-2015" e que constitui - afirma o Pontífice - a primeira resposta à realidade de tantos casais em dificuldade ou já divididos.
A ênfase aqui é que este compromisso diz respeito obviamente ao ministério dos pastores, ?mas envolve também em primeira pessoa os cônjuges, como protagonistas de uma comunidade que os acompanha?.
O Papa elogia a experiência de Retrouvaille também porque nasceu "de baixo", na escuta do Espírito Santo que "desperta na Igreja novas realidades que respondem a novas necessidades". A conclusão do discurso do Papa é confiada à imagem de Jesus ressuscitado com os discípulos de Emaús, que se coloca a caminho ao lado deles, ao longo da estrada, sem ser reconhecido:
Ouve sua crise os convida a contar, a se expressar. E então os desperta de sua insensatez, surpreende-os revelando-lhes uma perspectiva diferente, que já existia, já estava escrita, mas eles não tinham entendido: eles não tinham compreendido que Cristo tinha que sofrer e morrer na cruz, que a crise faz parte da história da salvação ...
O Papa insiste neste aspecto e o diz duas vezes: a crise faz parte da história da salvação. E acrescenta: A vida humana não é uma vida de laboratório, nem uma vida asséptica, como que banhada em álcool. A vida humana é uma vida de crise com todos os problemas de cada dia ... Depois, volta ao cenário bíblico:
E então aquele homem, aquele caminhante para para comer com eles, fica com eles: ele perde tempo com eles. Acompanhar significa ?perder tempo? para ficar perto às situações de crise. E muitas vezes é preciso muito tempo, é preciso paciência, respeito, disponibilidade? Tudo isso é acompanhar. E vocês o sabem bem.
FONTE: VATICAN NEWS