?Fazer? rádio parece ter se tornado exercício comum em pleno século XXI. Vira e mexe, ligamos o Rádio. E hoje não é mais aquele de mesa, na estante. Não. O rádio está no carro, na televisão, na internet, no celular e até no App já está ocupando seu espaço. Ouvir músicas hoje é o menor dos interesses de quem liga o rádio. Sintonizar o aparelho de voz humana passa a ser mais um passatempo ou um exercício automático de quem levanta cedo e já parte para seus afazeres.
Sobrevivendo e se renovando por décadas, o Rádio mantém-se firme e sempre atual. Tudo chega por meio dele. Uma corrida entre internet e rádio pode ser comparada a uma disputa entre o The Flash e o Superman e apostar quem corre mais. Desleal? Ambos têm superpoderes. Impossível? Ambos já salvaram o planeta uma vez. Desonesto? A única diferença á a faixa etária. O rádio está vivo desde a era de Kripton, enquanto a internet veio como um raio atingindo a terra há poucos anos.
Portanto, trata-se de ambos experimentos fabulosos. Ambos com semelhantes ferramentas de poder de alcance. Persuasão. Imortalidade. Significado. Extensão. Permanência. Importância. Trabalho. Investimento. Enfim, ambos vieram pra ficar. E não irão sair de moda nem tão cedo.
A primeira transmissão de uma voz humana para o público foi realizada por um experimento de quintal pelo padre Landell em 1893, no estado de São Paulo. Já em julho de 1899 o brasileiro e cientista padre Roberto Landell de Moura conseguiu alcançar num raio de 8 km uma transmissão radiofônica na capital paulista. Até então, tal experimento era o mais avançado da história. No entanto, por causa dos trâmites políticos e interesses econômicos, o título de inventor do rádio é dado ao italiano Guglielmo Marconi. Hoje, considerado o pai do rádio.
Mas essa conversa pouco nos interessa. O padre radialista também atravessou gerações. Inspirou a TV, criou a radionovela, recriou a cultura nacional e ponderou o gênero humorístico no país. Sim. Isso tudo é rádio. Hoje até o padre está no rádio. Faz preces, reza com a gente, lê a bíblia, dá notícias do papa. O estúdio agora virou púlpito. O microfone é o novo aspersor que redime os fieis ouvintes de suas faltas cometidas.
Não obstante, Landell ainda foi apontado pelo público ouvinte de ?homem de satã?. Ninguém, entendia, na época o valor de seu experimento. Ouvir outra pessoa igual a nós, por um aparelho transmissor, sem fio, do outro lado da cidade? Isso era impossível e só podia ser possessão demoníaca! Alegaram que o padre abandonou sua fé e fez um pacto com o demônio. Que as vozes do transmissor, não eram humanas, mas era o demônio lançando uma maldição tentando enganar as pessoas e leva-las ao inferno.
O herói de Kripton também foi acusado de ser um monstro entre os humanos. Algo avançado demais para o tempo. Alguém fora dos padrões sociais humanos. Imortal. Nem mesmo Landell tinha visão do que ele acabara de criar com seus experimentos de fundo de quintal. Foi preciso que alguém com um investimento maior, patrocínio e reconhecimento, liderasse a empreitada e declarasse que o que criou não era obra inumana, mas um avanço extraordinário.
E hoje temos o rádio. Companheiro de todas as horas. Hoje todos se apoiam nele e fazem a vida acontecer. Hoje o cantor é radialista; o professor é radialista; o economista é radialista; o prefeito é radialista. Hoje, o padre é radialista. A fé está no rádio. É transmitida por suas ondas eletromagnéticas e chega até os ouvintes. A todos os tipos de ouvintes. Os crentes e os não-crentes. Os de religião, e os que não seguem uma doutrina. Os cristãos e os não-cristãos. E o padre fala a todos. Com sua mesma linguagem de amor, de fé, de esperança. Há aqueles que conseguem retomar a força de viver pelas ondas do rádio.
Por fim, o exercício do rádio, o ?fazer? rádio, pode até ser um exercício comum. Mas não é por aí que a história se passa. Hoje recebemos áudios a todo minuto. Seja pelo rádio, por Apps, mas a todo instante alguém tem algo a nos dizer, sempre. Para ouvir, gastasse muito mais tempo do que pra falar. Ouvir exige de nós um esforço hercúleo, heroico, paciente, exigente. Para falar, basta apertar um botão e despejar tudo o que pensamos. Por isso que não é fácil ouvir e sempre selecionamos o que queremos escutar. Mas, quando falamos, não selecionamos o que falamos, simplesmente, apertamos o botão da fala.
Quem será que vence essa corrida?
Frt. Dione Afonso, SDN
Missionário Sacramentino de Nossa Senhora
Foto: ?O rádio e o poder de fala?.
Foto de StockSnap / via Pixabay
25 de junho de 2020.