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Elemento interessante são nossos vizinhos. Alguns perto, outros mais longe. Alguns do outro lado da rua, outros que dividem o quintal. Alguns da mesma calçada e outros que espiam da janela do prédio ao lado. Vizinhos...


As escolhas de sons, melodias, canções que optamos ouvir a cada dia é uma característica bastante pessoal. O ato de escolher o que queremos ouvir, cantar, dançar, revela muito a nossa personalidade. Por exemplo: ouvir músicas que me faz sorrir, dançar, pular, indica que estou feliz, animado, bem disposto. O contrário, diz que eu estou triste, desanimado, sem querer muita conversa.


O estilo musical revela até a própria idade. Certo dia eu comecei a perceber o estilo musical do meu vizinho e as estações de rádio que ele costumava ouvir. Programas com os nomes, ?Do fundo do baú?, ?É pra matar a saudade?, ?Tributo ao Rei?, ?Anos 80?, ?Essa fez história?, ?Túnel do Tempo?, ?Recordações?, ?Memória Musical?, sempre estiveram presentes na lista do que o vizinho ouvia. Do lado de cá, de minha janela, era possível ouvir os programas do rádio do meu vizinho.


Um estilo musical que me fazia construir em meus pensamentos quem era o meu vizinho: não era alguém dessa geração. Se fosse mais jovem, eu ouviria algo como um sertanejo universitário, ?É hoje? da Ludmila, o álbum da Anitta e do MC Kevinho. Mas o que eu ouvia era Roberto Carlos, Trio Parada Dura, Roberta Miranda, Alceu Valença, Djavan, João Paulo e Daniel. Enfim, com certeza meu vizinho é um idoso amável, aqueles que ainda encontram no rádio uma companhia adorável, e algo que possa embalar seu dia.


Fiquei curioso e comecei a me perguntar se era só um velhinho ou se tinha companhia. Se morava sozinho. Se precisava de cuidados. Se tinham alguém que olhava por ele. E se ele fosse um idoso que não tinha com quem conversar? Que não recebia visitas. Será que tinha filhos? Netos?


O rádio do vizinho quando nos incomoda é altruísta. Faz-nos abandonar um pouco as nossas próprias preocupações e começar a pensar no outro. A pensar em suas necessidades. Um outro vizinho, por exemplo ligava o rádio apenas nos programas jornalísticos e noticiosos. Bom. Esse é mais difícil de construir: pode ser um pai de família que quer se manter antenado; pode ser um jovem universitário que sempre olha as últimas notícias antes de sair de casa; pode ser a dona de casa que enquanto mantem a harmonia do lar se inteira dos assuntos; pode ser...


Resumindo: o rádio do vizinho traduz para nós alguém que divide a rua, o prédio, o condomínio, o bairro com a gente. Enquanto nos incomodamos com o som alto, com a música elevada e de letra não agradável a todos, percebemos também que talvez é a companhia que ele próprio tem. Sempre nos incomodamos com algo externo que nos afeta. Se o outro te afeta, e isso te incomoda, talvez seja porque o outro te preocupa, te move, te tira da comodidade, e te faz ir ao encontro dele...



Frt. Dione Afonso, SDN

Missionário Sacramentino de Nossa Senhora

Foto: Antenas e conexões sobre as casas.

Emiliyam por Pixabay

01 de outubro de 2020.